A terceira pessoa

Londres, 13 de Fevereiro de 1996

Meu caro amigo Duda,

Pensei em te mandar um postal de Budapeste, mas você já tem tantas coisas de lá… Eu também queria escrever mais do que se cabe em oito linhas. Agora estou em Londres, esse lugar é a sua cara, lembro da nossa primeira vinda em 1983. Era uma época insana, hoje a cidade parece menos caótica, mas assim como o mundo, as coisas só ficam mais loucas. Por aqui chove em dias alternados, a neblina aparece levemente, uma curiosa despedida do Inverno.

Nesses últimos três meses por aqui aconteceram muitas coisas, atuei em minha primeira peça fora do Brasil, junto com três amigos que fiz num Pub, eles tem um grupo de teatro que é totalmente diferente do que eu já vi fora do nosso país… Na peça eu sou um indiano que se perde em Paris e encontra uma jovem portuguesa, por quem se apaixona, o resto você precisa assistir…

Fora isso, estou trabalhando em uma livraria que lembra grandes filósofos… O café do local é totalmente aconchegante, muitos leitores passam madrugadas devorando livros e discutindo sobre as obras por aqui. Aproveito para viajar em leituras de Sartre, Asimov e Dostoievski, também tenho usado o polegar para cobrir um pouco o sol, assim lembro que existo e pertubo a consciência.

Uma das pessoas q atuam comigo é a minha amiga Heather, uma pessoa excepcional, que tem me feito quebrar a imagem que tinha de frieza dos ingleses, ruiva e com um largo sorriso no rosto. Por ironia do destino, me peguei olhando para ela no retrovisor do carro que nos levava a uma festa numa cidade à 93 km de Londres. É inacreditavel as peças que a vida nos prega, meu caro, depois de três meses de convivência, acabamos nos entregando..

Depois de Praga, Durban, Lyon e Munique, me sinto amarrado em Londres, embaixo das saias da rainha. O que torna esse relacionamento difícil é a desaprovação dos nossos outros colegas, já que Heather ainda é casada, apenas no papel, já tem 6 meses que ela se separou. Fora isso, qualquer lágrima derramada faz a sinceridade ter vergonha…

As vezes, parece que a felicidade nos procura em momentos estranhos, mas acredito que possamos correr atrás dela a qualquer hora, se for verdadeira. Me sinto leve e respiro vida novamente depois de alguns meses. Falta você aqui para tomarmos um porre de Guinness no Bender’s Pub, espero que termine seus trabalhos aí em NY e possa voltar para o velho mundo.

Um grande abraço, do seu amigo Jeff.

4 thoughts on “A terceira pessoa

  1. eu não acredito! eu estou AGORA com aquela camisa do Arsenal campeão de 96! definitivamente coincidências não existem. achei q ela era a única recordação dessa época. muito boa, por sinal! Heather hoje é diretora em Liverpool, tem feito muito sucesso e acabou voltando mesmo para Paul, seu ex-atual-futuro marido. Está pensando inclusive em remontar exatamente “As Noites de Paris” me mandou algumas sinopses, devo ir para a estréia. No mais está tudo bem. ouvi dizer q aí em salvador tem chovido tal qual a nossa querida e cinza london. é verdade? quando vem nos visitar? a nossa casa de praia em Honolulu já está pronta! vem num final de semana desses. ok? forte abraço amigão!

  2. caralho,isso aqui ta fantástico!!
    “…tenho usado o polegar para cobrir um pouco o sol, assim lembro que existo e pertubo a consciência”…Perfeito!
    Duda, segura a onda ai que to indo te ver em dezembro!

    abraço
    =]

  3. Nossa, mulher casada em 96!!! Indiano perdido em paris apaixonado por uma portuguesa!!!! Férias no Hawai! Os tempos eram realmente outros…

  4. To adorando dar uma de “terceira pessoa” realmente, esse olhar intrometido vindo de fora e tomando ciencia da correspondencia de vcs!

    Soh queria saber quem eh que escreveu qual, de verdade. Mas aih seria intromissao demais, ne? =P

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