Namoradinha da França: Valérie, mulher de Hollande, promete ter forte influência no novo governo

Eduardo Pelosi, direto de Londres
Francois Hollande e Valerie Trierweiler - Foto Mathieu Delmestre-Divulgacao
Francois Hollande e Valerie Trierweiler - Foto Mathieu Delmestre-Divulgação

Com a posse do novo presidente francês François Hollande, hoje, o palácio presidencial em Quay d’Orsay receberá também uma nova primeira-dama. Valérie Trierweiler é jornalista, tem 47 anos, e durante a campanha eleitoral mostrou que é uma mulher de personalidade forte, independente e deve influenciar nas decisões do novo governante.

O sorriso simples, os cabelos castanhos e o figurino básico não parecem combinar com o apelido de “Rotweiller”, que ganhou dos adversários de Hollande, e muito menos com o título de “Dama de Ferro” – que faz referência à ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher – dado pela imprensa europeia.

Valérie declarou à TV francesa Canal+ que não sabe exatamente qual será seu papel e não encontrou nenhuma “escola para primeira-dama”. Já ao The Times, ela disse que não será apenas “um enfeite”, o que foi considerado pelos franceses como uma crítica exagerada ao estilo da sua antecessora, a ex-modelo Carla Bruni.

Durante a campanha eleitoral, Valérie atuou ativamente como conselheira do então candidato e trabalhou no escritório da campanha de Hollande. É atribuída a ela a grande mudança na aparência do novo presidente da França, que emagreceu mais de dez quilos, passou a usar ternos mais modernos e abandonou os óculos de armação quadrada durante os últimos meses.

Segundo o The Telegraph, Valérie orquestrou, inclusive, o beijo que Hollande deu nela na celebração da vitória eleitoral, o que foi considerado um comportamento fora do estilo do novo presidente.

Namoro

Francois Hollande e Valerie Trierweiler - Foto Mathieu Delmestre-Divulgação
Francois Hollande e Valerie Trierweiler - Foto Mathieu Delmestre-Divulgação

Esta será a primeira vez na história que um presidente francês assumirá o posto sem ser casado oficialmente. Mas a situação, que pode gerar entraves diplomáticos em visitas de Hollande a países mulçumanos ou ao Vaticano – que possuem regras mais duras com relação ao casamento -, não é uma preocupação para a nova primeira-dama e também não tem sido vista como um problema pelos franceses.

Valérie tem origem em uma família bem mais humilde do que as outras primeiras-damas francesas. Apesar de seu avô ter sido dono de um banco no sudoeste da França no início do século XX, quando ela nasceu, em 1965, o banco Massonneau Angevine & Co. já havia sido vendido quinze anos antes e a herança dissolvida entre os familiares.

Ela foi a quinta de seis filhos de um pai inválido e uma mãe que trabalhou como funcionária de uma pista de patinação, e viveu toda a infância em Angers, há 300 quilômetros de Paris, numa residência para famílias de baixa renda mantida pelo governo.

Ambiciosa, decidiu estudar Ciências Políticas na Universidade de Sorbonne e começou a carreira jornalística em 1988, na extinta revista Profession Politique.

Atuou no jornalismo político durante mais de 20 anos, dos quais em grande parte trabalhou para a revista semanal Paris Match. Valérie foi casada duas vezes e teve três filhos com o seu segundo companheiro, o jornalista Denis Treirweiler.

Curiosamente, uma das suas entrevistas mais marcantes foi publicada em 1992, com Ségolène Royal – então ministra do Meio Ambiente – que era casada com François Holland e havia se tornado a primeira francesa a dar à luz enquanto ocupava um cargo de ministra. O relacionamento de Hollande com Valérie se tornou público em 2010, quando ele declarou que ela era a mulher da vida dele.

Entretanto, a relação dos dois é apontada pela mídia francófona como a causa do fim do casamento de 30 anos entre ele e Ségolène, em 2007.

Reviravolta

Em entrevista à BBC de Londres, a nova primeira-dama confessou que até hoje se surpreende com a extraordinária reviravolta em sua vida. “Eu me tornei assunto do que antes eram minhas reportagens. É como naqueles filmes onde uma pessoa atravessa a tela do cinema e se torna parte da história”, comentou Valérie.

A inversão de papéis parece não ser tarefa fácil para a companheira do presidente Hollande. Durante a campanha eleitoral, chegou a enviar mensagens criticando duramente antigos colegas de profissão e se desentender com equipes de reportagem que seguiam seus passos e faziam plantão na porta da sua casa.

Quando descobriu que era a personagem na capa da Paris Match, revista para a qual trabalhava, declarou, através da rede social Twitter, que estava chocada em descobrir que suas fotos foram usadas sem a sua autorização ou sem sequer ser comunicada. Ela criticou o enfoque machista da matéria e exclamou ironicamente: “Bravo, Paris Match!”

Após assumir o relacionamento com Holland, Valérie foi afastada da cobertura política e teve que encerrar um programa onde entrevistava políticos em um canal de TV a cabo. Apesar disso, a jornalista reafirmou o seu perfil de mulher independente ao declarar que não pretende ser apenas uma primeira-dama.

Em entrevista à revista Elle, Valérie afirmou que deseja continuar exercendo a sua profissão e que pretende fazer um programa onde entrevistará personalidades estrangeiras, para manter distância do seu comprometimento político e não atrapalhar o trabalho do novo presidente.

“Quero continuar trabalhando para ter minha independência. Tenho três filhos adolescentes e não ficarei confortável em sustentá-los com os recursos do governo francês”, disse.

Publicado originalmente no Jornal Correio*, em 15/05/2012