Londrinos vão às urnas para escolher novo prefeito

Sete candidatos disputam o comando da da capital inglesa. Saibam como uma das maiores cidades do mundo consegue ser eficiente com apenas 600 funcionários na prefeitura

Eduardo Pelosi, direto de Londres
A famosa Tower Bridge e a Prefeitura de Londres (Foto: Eduardo Pelosi)
A famosa Tower Bridge e a Prefeitura de Londres

Violência, transporte público, moradia, desemprego e greves. Esses são alguns dos vários problemas que Salvador enfrenta nos últimos anos. Na reta final para as eleições municipais, moradores de outra grande metrópole discutem os mesmos problemas. Nesta quinta-feira (3), os eleitores vão às urnas em Londres para escolher o seu novo prefeito. O resultado deve ser divulgado amanhã.

Ao todo, são sete candidatos disputando o principal cargo político da capital da Inglaterra. De acordo com a última pesquisa eleitoral – publicada pelo jornal London Evening Standard/Agência ComRes – o atual prefeito, Boris Johnson (Partido Conservador), é o favorito para tirar a cidade da recessão econômica, com 45% das intenções de voto. Johnson rivaliza com o ex-prefeito, Ken Livingstone (Partido dos Trabalhadores), que é o segundo colocado nas pesquisas com 36%, os outros candidatos somam 18% dos votos.

Na última pesquisa, os eleitores também apontaram quais os maiores problemas que o novo prefeito deve dar prioridade. Entre eles estão: custos do transporte público (indicado por 63% dos entrevistados), moradia (47%), segurança pública (38%), melhor gestão dos impostos (32%), melhoria das condições sociais no subúrbio (32%) e o sucesso/legado dos Jogos Olímpicos de 2012 (16%).

Enquanto Salvador sofre com um transporte público precário e um metrô que está há mais de doze anos em construção, Londres tem uma enorme reputação no setor. Com o metrô mais antigo do mundo, a capital do Reino Unido tem uma rede de 402 km, 270 estações e 11 linhas, que atende 1,1 bilhão de passageiros por ano. Entretanto, a complexa estrutura de transporte sofre com superlotações, atrasos, greves e trens degradados.

Boris Johnson ganhou popularidade com a implantação do sistema público de aluguel de bicicletas (Andrew Parsons / Divulgação)
Boris Johnson ganhou popularidade com a implantação do sistema público de aluguel de bicicletas (Andrew Parsons / Divulgação)

Na semana passada, uma greve de 72 horas realizada pelos funcionários das linhas Jubilee, Piccadilly e Northern – que reivindicam melhores benefícios e inclusão no sistema de previdência da empresa de transportes – causaram inúmeros atrasos e superlotações nas outras linhas do metrô. O caos gerado pela greve foi alvo de duras críticas por parte da população e colocou em dúvida a capacidade do sistema para receber uma grande demanda extra, como acontecerá durante as Olimpíadas.

Uma das alternativas para fugir do stress no trânsito e dos metrôs lotados em Londres é utilizar o sistema público de aluguel de bicicletas. Inaugurado em 2010, o serviço conta com 8 mil bicicletas em 570 estações espalhadas pela cidade. Pagando apenas 2 libras esterlinas, o equivalente a R$ 6, é possível utilizar a bicicleta por um período de uma hora. Mais de 150 mil pessoas já utilizaram o esquema, que é elogiado pelos usuários do serviço e é uma das grandes realizações do atual prefeito.

Se na capital baiana os altos índices de violência geram números expressivos, com 53,1 homicídios para cada 100 mil habitantes (SSP), em Londres são apenas 1,6 homicídios para cada 100 mil habitantes (ONU). Entretanto, a violência ainda é uma das grandes preocupações e um dos principais pontos de debate durante a campanha. Apesar do atual prefeito e favorito nas pesquisas, Boris Johnson, ter diminuído o número de homicídios pela metade, a contagem de furtos, assaltos, brigas entre gangues e violência sexual cresceu nos últimos anos.

No ano passado, uma série de tumultos e atos violentos marcaram o verão na capital inglesa. O que começou como um protesto pacífico sobre o assassinato de um jovem negro por policiais, gerou uma série de saques e incêndios criminosos por toda a cidade durante cinco dias. A reação demorada da polícia foi alvo de críticas ao primeiro ministro David Cameron e ao prefeito Boris Johnson. Como resultado, cinco pessoas morreram e 16 ficaram feridas, além de um prejuízo financeiro estimando em mais de R$ 600 milhões na economia local.

Ken Livingstone, ex-prefeito e segundo colocado nas pesquisas para prefeito de Londres (Foto: Annette Boutellier/ Divulgacao)
Ken Livingstone, ex-prefeito e segundo colocado nas pesquisas para prefeito de Londres (Foto: Annette Boutellier/ Divulgacao)

Com a recessão econômica, outra grande preocupação é o crescimento da taxa de desemprego – que pulou de 2,5% em 2008 para 4,4% nos últimos meses, de acordo com o Escritório de Estatísticas Nacionais. Entre os jovens de 16 a 24 anos, que já trabalham ou trabalharam e estão a procura de um novo emprego, a taxa de desemprego já chega a 14%, de acordo com o Centro de Inclusão Econômica e Social. Com os altos custos para cursar uma universidade na Inglaterra, não trabalhar é opção apenas para uma pequena fatia dos jovens que pretendem continuar estudando após concluir o ensino básico.

O novo prefeito de Londres tem uma lista interminável de desafios para enfrentar e, cada promessa feita pelos candidatos será cobrada pelos eleitores, que acompanham de perto a gestão municipal. A cada seis meses, os moradores da cidade podem participar de uma reunião semestral de duas horas com o prefeito e os deputados para cobrar antigas demandas e discutir os novos problemas. Para Salvador, ainda faltam cinco meses até as eleições e um longo caminho até que a cidade possa suprir todas as necessidades do soteropolitano.

Período eleitoral

Durante a campanha eleitoral (desde 20 de março até hoje), existe um valor máximo que limita os gastos dos candidatos. Um candidato a prefeito pode gastar, no máximo, R$ 1,2 milhão. Sem horário eleitoral gratuito, os candidatos precisam percorrer toda a cidade, visitar universidades, organizações, hospitais e escolas e expor suas ideias diretamente para a população. Além disso, a Internet é ferramenta fundamental para os candidatos aprofundarem suas propostas e interagir com a população. Não existem coligações partidárias, então cada partido lança seu candidato que defende os ideais e bandeiras específicos da agremiação.

Os debates ocorrem nas semanas anteriores à votação em canais de televisão e emissoras de rádio e são mais descontraídos, sem muitas regras, réplicas e tréplicas, como no Brasil. Nos debates televisivos, apenas os cinco candidatos mais expressivos discutem abertamente os temas, confrontam ideias e são questionados pela plateia, formada por eleitores, e pelo jornalista mediador. Apesar de não existir uma cronometagem para as respostas, candidatos precisam responder as perguntas de forma direta e objetiva para não serem interrompidos pelo mediador.

O prefeito de Londres terá ao seu comando uma estrutura que agrupa 600 funcionários da prefeitura. Além disso, ele será responsável por cuidar do transporte público (através da Empresa de Transportes para Londres), do Corpo de Bombeiros e da Polícia Metropolitana. Tudo isso com um orçamento anual de, aproximadamente, R$ 44 bilhões.

Além do prefeito, os eleitores vão escolher os 25 deputados da Assembleia de Londres e são responsáveis por fiscalizar a administração municipal e aprovar ou rejeitar o orçamento público. A Assembleia também é responsável por escolher alguns de seus membros para gerenciar a Empresa de Transporte Público e o Corpo de Bombeiros. Os serviços de coleta de lixo, agência de emprego, escolas públicas, e atendimento ao cidadão ficam sob a responsabilidade de 33 conselhos locais, que atuam de forma independente como sub-prefeituras.

Compare os dados de Londres e Salvador:

Londres

  • População: 7.753.600 (região metropolitana)
  • Área: 1.572 km2
  • Salário do prefeito: R$ 36 mil
  • Número de deputados: 25
  • Salário dos deputados: R$ 13.500
  • Orçamento anual: R$ 44 bilhões
  • Número de funcionários na prefeitura: 600
  • Metrô: O mais antigo do mundo (149 anos), com 402 km de linhas
  • Homicídios/100 mil habitantes: 1,6
  • Taxa de desemprego: 4,4%

Salvador

  • População: 4,866,004 (região metropolitana)
  • Área: 706 km2
  • Salário do prefeito: R$ 10.400
  • Número de vereadores: 41
  • Salário dos vereadores: R$ 9.200 (Verba total R$ 41 mil)
  • Orçamento anual: R$ 3,7 bilhões
  • Metrô: Há mais de 12 anos em construção, apenas 6km de linhas e ainda não foi inaugurado
  • Homicídios/100 mil habitantes: 53,1
  • Taxa de desemprego: 17,3% (Março/2012 – SEI)

Matéria publicada originalmente no Jornal Correio*, em 03/05/2012