Entrevista: Ubiratan Castro


Professor Ubiratan Castro - Fotos: Rita Barreto/Setur
Professor Ubiratan Castro - Fotos: Rita Barreto/Setur

O ano começou com a triste notícia da morte do professor Ubiratan Castro, nesta quinta-feira (3), após uma longa batalha contra problemas renais. Em setembro de 2010, tive o prazer de entrevistar o professor para a Revista Viver Bahia. O então presidente da Fundação Pedro Calmon falou sobre a influência dos negros na formação da cultura baiana e como essa herança africana desperta o interesse de turistas do mundo inteiro. Em homenagem a esse grande pesquisador e pensador da cultura brasileira, resgatei a entrevista na íntegra, confiram:

por Eduardo Pelosi

Declaradamente apaixonado pela história e pela cultura do negro no Brasil, o professor Ubiratan Castro é formado em Direito e História, mas acabou dando prioridade a sua paixão. Hoje, é Doutor em História pela Université de Paris IV, membro da Academia de Letras da Bahia e presidente da Fundação Pedro Calmon. Durante sua trajetória, escreveu livros como “Salvador era assim. Memórias da cidade”, “A Guerra da Bahia” e “Sete Histórias de Negros” e presidiu a Fundação Cultural Palmares.

Viver Bahia – O senhor hoje é um dos maiores especialistas na história do povo afrodescendente da Bahia. Como surgiu o interesse em estudar a história do negro?
Ubiratan Castro – Como sou de uma família negra baiana, que veio da zona da escravidão, desde cedo me interessei pelo assunto. As histórias da escravidão permearam na minha cabeça desde pequeno, como história de família e aquela coisa da resistência. Fui educado para levantar a cabeça, ir pra frente e não aceitar marginalidade. Ter nota boa na escola era uma obrigação, a educação seria então o nosso único caminho. Então cresci sabendo que tinha que estudar muito, tirar nota boa, porque se não fosse bom aluno, não teria chance, sendo eu um negro. Dedicar-me a esse tema foi então um impulso. Depois, vieram os estudos sobre a escravidão, com a doutora Kátia Matoso, a maior historiadora do Brasil sobre o século XIX. Ela me chamou para trabalhar com ela no tema da escravidão, então eu entrei nessa linha de pesquisa de história econômica da escravidão, história social da escravidão, e depois passei à história social e política da escravidão.

VB – Na sua opinião, como os negros influenciaram a construção da cultura e da democracia baiana e brasileira?
UC – A Bahia tem uma população de 70% de descendentes de africanos, nas várias tonalidades de pele, mas todos portadores dessa mensagem cultural. Trata-se de uma cultura de várias Áfricas, porque não há uma África só. Somos descendentes de negros de várias áreas africanas, cada uma com sua história milenar. Temos aqui a herança de Angola, do Benin, do Senegal, de Moçambique. Enfim, tudo isso se amalgama aqui na Bahia e transcende para uma cultura diaspórica, através do contato com os índios e brancos. Essa cultura negra dá exatamente o ponto de diferenciação do Brasil para Portugal, por exemplo. O Brasil não é o Portugal diferente, ele tem essa matriz portuguesa forte do colonizador, mas toda diferença do Brasil é dada por essa cultura negra. No momento em que a África começa a se levantar, não só a África do Sul, mas também Angola, Moçambique, Senegal, enfim, a Bahia passou a ser um local natural de contato cultural e de articulação com a África. Essa diversidade baiana atrai toda uma curiosidade de visitantes estrangeiros. A Bahia é sedutora para o mundo porque ela é original, ela tem esse ponto original de convergência, de interação, de influência cultural e isso tem um valor fundamental, que é o valor turístico. Desde os anos 40, quando Jorge Amado começou a difundir pelo mundo inteiro os seus livros, falando do povo baiano, com a sua cultura negra embutida, com os costumes, a sua alegria, a sua irreverência, vários turistas têm sido atraídos pra cá e muitos deles viraram baianos. Se você reparar, foi por causa de Jorge Amado que Pierre Verger veio para a Bahia. Ele era um viajante do mundo e veio aqui para ver a terra dos livros de Jorge Amado; chegou aqui, se encantou e ficou. Carybé, argentino, veio para a Bahia, se encantou e ficou. Enfim, esses são alguns exemplos de grandes nomes que vieram como turistas, apaixonaram-se pela terra e ficaram aqui. Sem contar os milhões que vieram e voltaram aqui, turistas que ficaram fiéis, que vêm regularmente à Bahia. Além disso, o Brasil inteiro vem aqui buscar a referência do começo do Brasil, do berço do país que nasceu aqui.

VB – E isso tudo influenciou nossa cultura religiosa também?
UC – Tem uma coisa muito interessante em termos de cultura negra. Você sabe que o candomblé é natural do Brasil, ele se fundamenta em cultos africanos, mas a organização do candomblé, com vários orixás juntos, como religião, é um fenômeno brasileiro. Muito dos candomblés, das casas de santo de São Paulo e do Rio de Janeiro foram buscar referências na África, viajaram para lá e simplesmente não encontraram candomblé naquele continente. Encontraram o culto de Xangô, de Ogum. No lugar que tem Ogum não tem Xangô, onde tem Xangô não tem Oxalá. Ou seja, lá existe o culto a um orixá específico em cada localidade, bem diferente do nosso candomblé. Chegou-se, então, à conclusão que a matriz, a Roma do candomblé, é a Bahia. Então, a partir dos anos 70, todos os grandes terreiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e outros estados, vêm para a Bahia buscar inspiração, buscar axé e criar uma relação com as casas daqui, como casas matrizes de um candomblé brasileiro. A Bahia tem esse papel matricial, em matéria de tradição religiosa, em matéria de Carnaval. Ou seja, somos uma referência internacional.

VB – Essa cultura africana ajudou a moldar esse modo de vida denominado baianidade?
UC – São muitos os aspectos que essa cultura nos trouxe para moldar essa baianidade. A primeira delas é a característica de uma civilização solar. Nós não temos aquela coisa europeia do inverno, do corpo coberto, de nos protegermos do frio. Gostamos de andar ao ar livre, tomando sol, nos bronzeando com luz e com uma grande exposição. O baiano, de certa forma, é até meio narcisista. Aqui a galera gosta de se mostrar, mostrar o corpo, desfilar, ser aplaudido. Enfim, essa coisa de fora, da extroversão, diferente de outras civilizações caracterizadas pela introversão, até por causa do próprio clima. Os africanos também têm isso, andar nu não é só sacanagem, andar nu é se sentir bem e ser banhado pelo sol, absorver vitamina, mergulhar, tomar banho de mar, essas coisas. Tem outra característica muito própria da África, que é a cultura do “passa a mão”. Se você reparar, um padrão estético-erótico grego, europeu, é da contemplação. Afrodite é bela e ficamos encantados olhando para Afrodite, numa espécie de cultura voyeur, de olhar, de ver revista de mulher nua, de ver desfile. Nesse contexto, a visão é fundamental para se encantar. Na cultura africana que veio para cá, principalmente dos negros nagôs, o que dava excitação nos homens africanos não era olhar, o que faz eles se excitarem é pegar, é colocar a mão para ver como é. O Carnaval é o nosso roça-roça eterno, você tromba, esfrega, passa a mão, você toma tapa, troca beijo. Enfim, do corpo falar por você. Quando encontramos um amigo, nos abraçamos, nos beijamos, sem ter nenhum aspecto sexual. Para nós, é normal beijar os amigos, os parentes, os colegas. Mas essas coisas já não são normais em outras civilizações, onde as pessoas carregam uma espécie de redoma em torno do próprio corpo, mesmo quando está todo mundo espremido num metrô; em Paris, por exemplo, fica todo mundo apertado no metrô, como numa lata de sardinha, mas todos estão se “defendendo” do contato com o outro. Localizei em uma documentação da chegada dos africanos na Bahia, que fala das tatuagens e das escarificações, que são tatuagens feitas com queimaduras, que levantam uma cicatriz e formam aqueles queloides. Encontrei uma descrição da alfândega na Bahia, com a descrição do corpo das moças africanas, elas tinham um corpo todo bordado com essas cicatrizes, em volta dos seios, pelas costas, nas partes mais íntimas. Todos esses bordados no corpo eram feitos como preparação para o casamento, porque o que dava excitação para os maridos era ir passando a mão no corpo das mulheres e acompanhando esses bordados.

VB – Nos últimos anos, nosso patrimônio cultural e artístico vem sendo recuperado. Como o senhor acha que essas restaurações valorizam o turismo e atraem visitantes?
UC – Salvador é uma cidade portadora de uma arquitetura colonial. Considerando que ela foi capital do Brasil até
1763, aqui se instalaram os primeiros prédios públicos, igrejas, a própria cidade foi importante para o comércio e a indústria açucareira até o século XX. Então ela tem uma das áreas urbanas mais representativas do Brasil, desde o barroco colonial, e eu acho que é um trabalho permanente a preservação, reparação, manutenção e cuidado com esse patrimônio material. Por exemplo, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, é uma igreja que vem desde 1700, de uma irmandade que surgiu em 1680. É um dos prédios mais visitados do Pelourinho, então a recuperação é algo que é fundamental para o turismo da Bahia. É uma coisa muito preciosa, você reavivar, preservar a beleza original e acima de tudo a estrutura. Outra restauração importante foi a do Palácio Rio Branco. Aquilo ali é a história do poder, foi a primeira casa de governador do Brasil. Abrigou o governador-geral, em 1549, quando ainda era feita de taipa e sofreu vários processos de expansão e de consolidação. Já nos anos de 1600, o palácio ganhou uma construção de pedra e cal. Depois, ele passa por todo um período republicano, quando foi refeito. Em 1912, teve o bombardeio que incendiou o prédio todo. O palácio foi reconstruído nessa forma atual, num estilo eclético francês da Belle Époque. Agora foi recuperado nos seus detalhes originais e ficou muito bonito. O turista que vai ao Palácio Rio Branco está em busca de uma referência histórica da Bahia, tanto que nós temos lá o Memorial dos Governadores, onde se encontram fotografias de todos os governadores e seus respectivos objetos pessoais. Nossa intenção é fazer daquilo um memorial da Bahia, moderno e digitalizado, como o Memorial JK.

VB– O que faz com que a Bahia se destaque como um dos principais destinos turísticos do mundo?
UC – A Bahia tem o que mostrar, tem sua originalidade, é um pouco do que dizia Milton Santos: “Uma nova globalização é aquela que se tem articulação internacional, mas também afirma e mantém suas características locais.” Então a Bahia não procura imitar Nova York, nem é nenhuma Buenos Aires, que copia e imita as cidades europeias. A Bahia tem seu jeito de ser, seus becos, seus costumes e abre isso para o mundo inteiro. Então, essa força da cultura local, que se integra com o mundo, nem todos os lugares tem isso. A Bahia é cosmopolita sem ser colonizada, sem ser uma cópia, essa originalidade é que atrai as pessoas. Quem vem da Europa e dos Estados Unidos quer saber como é viver nos trópicos, viver numa África que não é a África, que não tem a pobreza da África, que tem todos os recursos de comunicação, de saúde, mas que é africana. Essa identidade forte da Bahia é que atrai essa curiosidade e oferece uma alternativa de vida para quem está numa rotina europeia e americana, aquela rotina feroz do trabalho. Então, um italiano não vem aqui pra encontrar a Itália, ele vem para encontrar algo diferente, vem encontrar a Bahia. Essa nossa individualidade é um produto internacional, essa identidade local muito forte que se integra, que convive e sofre influência a todo o momento. Se você olhar o Carnaval e o Axé, de repente o pessoal absorveu a cultura da guitarra, da eletrificação, essa cultura que surge com o Iê-iê-iê, com o blues, a gente não reprocessou e ficou aqui fazendo blues, fazendo rock e começamos a devolver como Axé. O reggae, que veio de fora, foi reprocessado e virou samba-reggae. Então, essa é uma coisa que encanta outros países. Temos o samba brasileiro, mas é um samba diferente, quando chega na Copa do Mundo, a Globo tem que colocar o Olodum no Pelourinho, porque o samba-reggae é do Pelô, isso é muito próprio da Bahia. Eu sei que é um discurso afirmativo, mas eu sou um ativista afirmativo. O baiano não é lerdo, ele faz as coisas no tempo certo. A Bahia tem um patrimônio característico que é o povo baiano, seu modo de ser é que é seu grande patrimônio, além do patrimônio material. As pessoas vêm aqui para conhecer o povo baiano, temos praias bonitas, mas também temos o povo que está na praia. Tanto que hoje existe uma exportação desse modo de comportamento; tenho uma amiga que diz: “Baiano hoje não é mais indicativo de naturalidade, baiano hoje é um modo de ser brasileiro”. O turista passa um tempo aqui e volta para casa meio baiano. Esse é um patrimônio que é referência nacional e internacional. E vender esse destino, ao mesmo tempo que é difícil, é muito gratificante e muito mais fácil, tudo que temos aqui é atraente e duradouro.