At the Drive-In: um sonho adolescente, onze anos depois

O guitarrista Omar Rodríguez-Lopez e o vocalista Cedric Bixler-Zavala, no início da carreira, ainda sem as famosas cabeleiras
O guitarrista Omar Rodríguez-Lopez e o vocalista Cedric Bixler-Zavala, no início da carreira, ainda sem as famosas cabeleiras

A cidade de El Paso, no Texas, fica exatamente na tensa fronteira dos Estados Unidos com o México. Um dos pontos onde diariamente milhares de mexicanos tentam atravessar uma das pontes sob o Río Bravo del Norte para viver o sonho americano. Em 1993, exatamente em uma das zonas mais monitoradas da fronteira americana, dois jovens americanos (um deles de origem hispânica) montam uma banda de post-hardcore com melodias nervosas, carregadas de energia e letras complexas, furiosas e com um vocabulário que poderia ter sido retirado de um livro médico. Com um EP chamado Hell Paso – batizado com um dos apelidos da cidade de onde vieram – Jim Ward, guitarrista, e Cedric Bixler-Zavala, vocalista, lançaram o At the Drive-In, grupo que sete anos mais tarde venderia cerca de um milhão de cópias com o álbum Relationship of Command.

Essa é uma das bandas que marcaram a minha adolescência e que eu ouvi, por incontáveis vezes, os riffs inovadores, os gritos rasgados, a bateria descontrolada e o baixo marcante com letras que desafiavam qualquer um que se atrevesse a traduzir. No palco, o que mais traduzia a atuação da banda era o descontrole.

O grupo chegou a vender cerca de 1 milhão de cópias com o seu terceiro álbum, Relationship of Command
O grupo chegou a vender cerca de 1 milhão de cópias com o seu terceiro álbum, Relationship of Command

Os integrantes do grupo se equilibravam na linha tênue que separa o espetáculo do caos. Microfones lançados ao alto, guitarras imprensadas nos amplificadores, que por sua vez caíam no chão, tudo isso fazia do show um verdadeiro terremoto. Eu via e revia vídeos de algumas performances da banda onde tudo isso acontecia e, no final, todos saíam vivos.

Infelizmente, como tudo que é muito intenso na história do rock, o grupo se separou em 2001 e deixou os fãs sedentos por mais umas doses de toda aquela vibração sem controle. Dois dos integrantes do grupo, Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodríguez-López fundaram o The Mars Volta e o resto dos integrantes seguiram com uma nova banda, Sparta. Duas excelentes iniciativas, mas que seguiram por caminhos diferentes do que era o At the Drive-In.

Para a surpresa de todos os fãs, em 2012 os integrantes do grupo anunciaram uma turnê de reunião, que incluiria dois shows no Coachella Festival, uma apresentação na Austrália e duas na Inglaterra (Reading e Leeds Festival). A repercussão foi tão grande que outros festivais pagaram o preço para levar o grupo e a rota da turnê foi esticada para Espanha, Japão, França e outros três shows nos EUA.

Quando recebi a notícia, fiquei logo empolgado pois, como estava morando na Inglaterra, teria a oportunidade de assistí-los em uma das duas apresentações no país. Quem já teve a oportunidade de ir a algum festival na Europa ou nos Estados Unidos sabe como é caro e difícil conseguir arcar com os ingressos, hospedagem, transporte e etc. Na ponta do lápis, aproximadamente 600 libras, o que equivale a cerca de R$ 1.800. Depois de fazer as contas, fiquei no dilema entre torrar um dinheiro que me faria muita falta e realizar um sonho adolescente.

Quando já estava quase desistindo de torrar toda essa grana, uma amiga me avisa: O At the Drive-In marcou um show extra aí em Londres! Corri para comprar o ingresso, que me custaria apenas 30 libras (R$ 90). A surpresa foi ainda maior quando vi que a data do show era exatamente a minha última noite em Londres, surreal!

Na entrada do Brixton Academy, o aviso: At the Drive-In - Sold out! Foto: Eduardo Pelosi
Na entrada do Brixton Academy, o aviso: At the Drive-In - Sold out! Foto: Eduardo Pelosi

Finalmente, no dia 28 de agosto de 2012, saí de casa em direção ao famoso Brixton Academy, acompanhado de um grande amigo que também é fã da banda. Dentro da casa de show, um clima de nostalgia, ansiedade e nervosismo envolve todo mundo que esperava impacientemente pelo início do show. “Eu nem acredito que vou conseguir ver esses caras de tão perto!”, confessa um inglês encostado na grade que separa o público do palco.

Fortes luzes azuis se acendem, uma música que poderia ser a trilha sonora do momento mais tenso de um filme de faroeste começa a tocar e, assim, nesse clima de tensão, os integrantes do At the Drive-In sobem ao palco. “Bom dia, Miami!”, brinca Cedric que corrige logo em seguida: “Brixtooooon!”. Seguido pelas guitarras de Jim Ward e Omar Rodríguez-Lopez em microfonia e holofotes piscando intensamente.

Logo de cara, o agito das maracas carregadas por Cedric e o rufar da bateria de Tony Hajjar anunciam Arcarsenal, uma das músicas mais intensas do grupo. Uma multidão de punhos cerrados acompanham a introdução. Em segundos, o público explode em êxtase junto com a banda. Cedric ensaia alguns de seus passos epiléticos e o show segue com todo o vigor.

O ritmo só diminui um pouco antes da quarta música. Cedric recorre a sua caneca – que devia conter algum chá alternativo ou algum drink com energético – e a bela melodia ensaiada por Omar anuncia que a música a seguir é Napoleon Solo. Como filmei esse trechinho, vou poupar vocês de descrições:

At the Drive-In mostrou que, mesmo depois de 11 anos separados, ainda tem energia de sobra no palco - Foto: Eduardo Pelosi
At the Drive-In mostrou que, mesmo depois de 11 anos separados, ainda tem energia de sobra no palco - Foto: Eduardo Pelosi

O show seguiu com hits dos três discos da banda. Entre eles, Quarentined, Enfilade, Chanbara, Pickpocket e Cosmonaut. Durante todo o espetáculo, o que mais me surpreendeu foi a vontade e a satisfação expressa nos sorrisos dos músicos a cada explosão do público. No palco, o único que parecia meio deslocado de toda aquela celebração era Omar, que, apesar de garantir todos os solos perfeitamente, não se mostrava empolgado e se manteve um pouco mais distante dos outros integrantes do grupo.

Apesar de muito empolgado, o público inglês não costuma realizar mosh pits (aquelas famosas rodinhas de shows de rock). No Brixton Academy tem até uma placa dizendo que é proibido. Só que dessa vez, niguém poderia controlar a vontade que estava guardada por mais de dez anos. Assim como quem guarda o melhor pedaço do jantar para comer por último, o At the Drive-In lançou mão do seu maior hit, One Armed Scissor, no final do show e o descontrole se tornou lei no palco e nas várias mosh pits que surgiram na plateia.

“Levamos 12 anos para terminar a turnê Relationship of Command, esse foi o nosso último show”, confessa Cedric, vocalista da banda, com um sorriso de satisfação. O guitarrista Jim Ward, antes de sair do palco, complementa: “Eu amo esses caras mais do que a vida”.

Saí de lá com a alma lavada e com apenas uma certeza: o Rock é isso!

Grupo de El Paso, Texas, encerrou a sua turnê de reunião em Londres - Foto: Eduardo Pelosi
Grupo de El Paso encerrou a sua turnê de reunião em Londres - Foto: Eduardo Pelosi

Setlist

  1. Arcarsenal
  2. Pattern Against User
  3. Lopsided
  4. Sleepwalk Capsules
  5. Napoleon Solo
  6. Quarantined
  7. Enfilade
  8. Rascuache
  9. 198d
  10. Chanbara
  11. Metronome Arthritis
  12. Pickpocket
  13. Non-Zero Possibility
  14. Cosmonaut
    Bis:
  15. Catacombs
  16. One Armed Scissor

One thought on “At the Drive-In: um sonho adolescente, onze anos depois

  1. At the Drive-In é uma boa banda! Essa sensação é realmente maravilhosa, senti algo parecido quando o Foo Fighters entrou no palco do Lolla, ainda esse ano. Pelo que falam dos festivais gringos, pensei que fosse ser mais acessível, mas R$ 1.800 é realmente uma facada! Mas que festa cara, heim?
    Muito bom o seu texto. muack =*

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